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O Projeto da Imobilidade: Por que o transporte público de Campinas regride enquanto a cidade trava?

  • 29 de jan.
  • 3 min de leitura
No meio de uma avenida, um ônibus municipal verde e branco está sendo consumido por chamas intensas e fumaça preta. À esquerda, sob a cobertura de um ponto de ônibus, um grupo de pessoas aguarda com total indiferença: uma mulher olha o relógio de pulso e um homem mexe no celular, ignorando o incêndio ao lado. No primeiro plano, à esquerda, um vendedor de pipoca em seu carrinho metálico continua trabalhando calmamente, de frente para o fogo, como se a situação fosse parte da rotina urbana normal.

A fala recente do prefeito de Campinas sobre a necessidade de avançar com o transporte público na cidade soa, à primeira vista, como um gesto de sinceridade. No entanto, o que parece autocrítica (e culpando o atraso da licitação) é, na verdade, uma prova documental de omissão. Ao admitir o serviço precário, a gestão confessa a falha no cumprimento de um dever constitucional básico após mais de 12 anos de domínio do mesmo grupo político. O transporte coletivo que hoje pega fogo nas avenidas, quebra nas ruas esburacadas e deixa passageiros à pé é o resultado direto de quatro mandatos consecutivos que optaram por manter um modelo de mobilidade falido, centralizador e profundamente excludente. A realidade das ruas é confirmada pelos números oficiais: entre 2024 e 2025, as reclamações por descumprimento de horários saltaram 76,2%, consolidando o atraso como a principal "experiência" do usuário campineiro.


Em 2026, a Prefeitura deve repassar R$ 172 milhões, além do que a população paga nas passagens, para garantir o equilíbrio financeiro das concessionárias de ônibus.

Essa paralisia administrativa encontra seu maior exemplo no atraso crônico da nova licitação do transporte, um tema que a Minha Campinas acompanha desde 2015, mas cujas raízes são ainda mais profundas. Não se trata de mera burocracia, mas de uma escolha política que beneficia as atuais concessionárias, que seguem operando em um limbo contratual sem obrigações reais de investimento em frota ou tecnologia. Enquanto a licitação permanece na gaveta, a precariedade se normaliza: os registros oficiais mostram que, embora a Emdec tenha aplicado mais de 32 mil autuações aos operadores apenas em 2025, o sistema permanece em colapso. O volume de multas revela um modelo onde penalidades financeiras parecem ser incorporadas ao custo do negócio, enquanto o passageiro lida com uma alta de 22% no desatendimento de embarques e um aumento de 17% em casos de condução imprudente.


A consequência direta dessa ineficiência é o fortalecimento de uma cidade cada vez mais individualista e menos pública. A Emdec atribui parte dos atrasos à disputa de espaço entre ônibus e carros em eixos sem corredores exclusivos, mas essa é a lógica inversa da solução: é o transporte coletivo vergonhoso que empurra quem pode para o veículo individual, entupindo as vias e agravando o caos. Em 2025, Campinas atingiu a marca de 1 milhão de veículos, quase um para cada pessoa da cidade. Esse movimento aprofunda a segregação espacial e fere o direito à cidade, transformando o asfalto em um espaço hostil e privilegiado, onde o cumprimento de horários do sistema de ônibus não passa de 72%. Quem possui condições financeiras foge desse sistema; quem não possui, permanece isolado em bairros que carecem de dinâmica econômica própria, refém de 15 mil viagens diárias marcadas pela incerteza.


Nesse cenário, nem mesmo o BRT (Bus Rapid Transit) escapa da lógica de exclusão. Embora vendido como a solução, o sistema foi planejado para reforçar o deslocamento pendular, forçando a população a se deslocar diariamente para um centro sobrecarregado, em vez de fomentar o desenvolvimento nos territórios. Para romper com essa engrenagem de atraso, o debate sobre a Tarifa Zero surge não como uma utopia, mas como uma saída técnica e socialmente urgente. Cidades em todo o Brasil já provaram que tratar o transporte como um direito — tal como a saúde e a educação — é o único caminho para dinamizar a economia local, reduzir a desigualdade e devolver a cidade às pessoas.


Diante de um grupo político que se perpetua no poder sem entregar soluções estruturais, as perguntas que ficam são inevitáveis: a quem interessa manter Campinas travada em um modelo viciado que gera 32 mil autuações sem mudar a realidade do ponto de ônibus? Por que o orçamento municipal continua priorizando a fluidez dos carros em detrimento da dignidade de quem depende de um sistema que falha em quase 30% dos horários programados? A crise do transporte em nossa cidade não é um acidente, é um projeto de poder que precisa ser questionado por quem vive o cotidiano das ruas.

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