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O Dossiê das Promessas Esquecidas do BRT

  • há 3 dias
  • 8 min de leitura

Em 2011, a Prefeitura de Campinas prometeu um sistema de ônibus rápidos que mudaria a vida de 425 mil moradores das periferias do Campo Grande e do Ouro Verde. Seria entregue em 2019. Custaria R$ 539 milhões. Teria estações confortáveis, portas automáticas sincronizadas, intervalos de cinco minutos, ar-condicionado e revitalização urbana ao longo de 37 quilômetros de corredores. Em abril de 2025 — seis anos atrasado e com quase R$ 1 bilhão gasto — o prefeito Dário Saadi cortou a fita do "100% operacional." Se é que se pode chamar de operacional um sistema onde o mato cresce acima de dois metros nas estações, os ônibus demoram e sem ar-condicionado, as portas de vidro travam e o passageiro que reclama oficialmente, fala "ao vento."


Este é o dossiê.


Prólogo — Um Projeto que Nasceu Olhando para o Passado


ilustração de detetive com quadro de evidencias, abajur ligado, pastas de arquivo na mesa e pela janela um onibus do brt

Antes de abrir os casos, é preciso entender a lógica que os gerou.


O sistema foi desenhado para resolver um problema que o próprio planejamento urbano da cidade criou: a concentração radical de empregos, serviços e oportunidades no centro, enquanto os bairros periféricos foram crescendo como dormitórios. O Campo Grande e o Ouro Verde abrigam centenas de milhares de trabalhadores que, todo dia, precisam percorrer longas distâncias até o centro (ou passar por ele) para trabalhar, estudar, acessar saúde — e voltar. O BRT foi a resposta da prefeitura para esse problema. Só que a resposta reforça exatamente a lógica que deveria questionar.


Segundo Mayra Abboudi Brasco, doutoranda em Planejamento Urbano e Regional na UFRJ, o BRT adota uma lógica hierárquica: conduz os passageiros da periferia para dentro de um sistema que os leva ao centro — sem discutir por que a periferia não pode ter seus próprios polos de emprego, comércio e serviços. Em vez de investir no desenvolvimento econômico das regiões do Campo Grande e do Ouro Verde — gerando empregos e serviços onde as pessoas já moram — a cidade gastou R$ 975 milhões para tornar mais tolerável a dependência estrutural desses bairros em relação ao centro.


A própria população percebeu a contradição: a linha antiga de um bairro do Ouro Verde levava 25 minutos até o Terminal Central; com o BRT, o trajeto passou a 40 minutos, porque o sistema passa duas vezes pelo Terminal Central e uma pelo Terminal Mercado. A "inovação" que deveria cortar o tempo de viagem acrescentou 15 minutos ao deslocamento diário de quem mora na periferia. Mas a cerimônia de entrega foi linda.


Nota de rodapé histórica que ninguém menciona nos discursos: o leito sobre o qual o BRT foi construído é o mesmo do VLT inaugurado em 1991, que operou por quatro anos transportando uma fração mínima de sua capacidade projetada e foi abandonado. A cidade passou décadas com trilhos enferrujados na paisagem antes de mandá-los para Maceió. O BRT é o terceiro capítulo de uma história que Campinas ainda não aprendeu a escrever.


Com esse contexto, abre-se o dossiê. Seis casos. Seis vítimas. Um suspeito.


Caso 1 — A Vítima: O Orçamento


uma mesa com contrato, pilhas de moedas e uma mao com anel chique apontando para o contrato

Causa mortis: projeto licitado sem existir


O que foi prometido: R$ 539 milhões para construir os três corredores, conforme o edital publicado em 2016.


O que aconteceu: O edital de 2016 já nasceu com a conta errada. O orçamento original havia sido calculado sobre estimativa de custo — não sobre projeto executivo. Quando o projeto básico ficou pronto, a conta subiu 59% antes de qualquer obra começar, chegando a R$ 539 milhões. Depois disso, veio uma empreiteira que abandonou o lote 4 com 89,83% concluído, tendo recebido R$ 91,3 milhões. Para terminar o que sobrou, a prefeitura fez nova licitação por mais R$ 39,8 milhões. No fim das contas, o governo federal anunciou na cerimônia de entrega de maio de 2025 o custo total: R$ 975 milhões — dos quais R$ 570,2 milhões aportados pelo Ministério das Cidades.


Quase o dobro do prometido. Nenhuma prestação de contas pública sobre a diferença. Nenhuma devolução.


A cena do crime: Em nenhum momento da última década houve uma explicação detalhada, auditada e acessível ao cidadão sobre como R$ 539 milhões viraram R$ 975 milhões. O ministro das Cidades, Jader Filho, admitiu na cerimônia de entrega que a obra foi selecionada em 2012 e levou 12 anos para ser concluída, e concluiu: "Isso não pode continuar acontecendo nesse país." O que o ministro não disse: para quem essa conta foi apresentada sem aviso?


Caso 2 — A Vítima: O Prazo


um homem de sobretudo caminha por uma viela abandonada. na parede a esquerda um relogio enorme em ruinas

Causa mortis: morte em série, com assistência de empreiteira fujona


O que foi prometido: entrega total em 2019, conforme o contrato original de 36 meses assinado em 2016.


O que aconteceu: Uma sequência de mortes, em ordem cronológica.


2019 — prazo original. Morreu antes de chegar.


2020 — nova promessa, com o secretário de Transportes Carlos José Barreiro (que ainda é secretário em Campinas) garantindo em 2018 que as obras iam "de vento em popa." Caiu com a pandemia e sem a obra concluída.


"Final de 2022, caso não haja mais atrasos" — disse a prefeitura em 2021. Morreu quando o Consórcio BRT Campinas abandonou o lote 4 do Corredor Ouro Verde, deixando o Terminal Vida Nova com ferrugem, concreto quebrado, telhado com goteiras e cobertores pendurados entre os pisos servindo de cortina para moradores em situação de rua que dormiam no local.


"Segundo semestre de 2024" — prazo seguinte, após nova licitação. Não foi cumprido.


Abril de 2025 — entrega real. Quase cinco anos de atraso em relação ao cronograma original.


A cena do crime: Em julho de 2022, a prefeitura rompeu o contrato com a empreiteira por abandono e aplicou multa de R$ 550 mil. A empreiteira já havia recebido R$ 91,3 milhões. A multa representa 0,6% do valor recebido. Ninguém foi a júri popular.


Caso 3 — A Vítima: O Intervalo de 5 Minutos


uma pessoa de sobretudo aguarda de braços cruzados na estação de trilhos

Causa mortis: "falta recorrente de veículos"


O que foi prometido: intervalos de 5 minutos entre os ônibus nos horários de pico — o coração da proposta de um sistema rápido e eficiente.


O que aconteceu: Repórter da EPTV cronometrou quase 9 minutos de espera num horário de menor fluxo. Em horário de pico, passageiros relatam esperas de 20 minutos ou mais. A artista plástica Romilda Dias disse diretamente: "Normalmente nem é de 10 minutos, às vezes até de 20 minutos." A linha BRT 12, uma das três do Corredor Ouro Verde, opera com apenas quatro veículos e intervalos de 18 minutos como padrão — não como exceção.


A resposta oficial: a Emdec admitiu que a operação está "comprometida por situações recorrentes de falta de veículos" e declarou estar "autuando os operadores e reforçando a fiscalização." Os operadores continuam com os contratos. Os usuários continuam esperando. As autuações não têm efeito visível nos terminais.


A cena do crime: O problema tem nome técnico na própria nota da Emdec — "falta recorrente de veículos." Um sistema de BRT sem veículos suficientes é um corredor de concreto. Campinas construiu 36,6 quilômetros de corredor e não garantiu frota para operá-lo conforme prometido.


Caso 4 — A Vítima: O Ônibus Moderno 


muitas pessoas dentro do onibus passam calor. uma mae segura um filho preocupada ao centro

Causa mortis: sauna sobre rodas


O que foi prometido: veículos articulados ou biarticulados modernos, confortáveis, adequados ao sistema BRT — subentendendo, em qualquer definição razoável do termo "moderno", ar-condicionado.


O que aconteceu: Para suprir a falta de veículos padrão BRT, a prefeitura adaptou ônibus antigos, sem ar-condicionado, para operar nas linhas. Os modelos reutilizados sequer têm janela que abra — foram fabricados para ter ar-condicionado. Quando o ar está quebrado, o que é recorrente segundo os próprios usuários, o ônibus vira uma sauna fechada. Em janeiro de 2025, depois de meses de reclamações públicas, a prefeitura respondeu nas redes sociais prometendo nova frota com ar-condicionado "ainda em 2025", sem detalhar prazo, percentual ou cronograma. São Paulo exige ar-condicionado em 80% da frota municipal desde 2016. Naquele mesmo ano, Campinas lançava o edital do BRT.


A cena do crime: Uma usuária descreveu sua filha dentro do ônibus lotado sem ar: "Eu falo assim: 'filha, fica com a cabeça para cima para você respirar.'" Uma mãe orientando a filha a manter a cabeça erguida para conseguir ar dentro de um ônibus do sistema que prometia conforto. O secretário não comentou.


Caso 5 — A Vítima: as Estações Confortáveis


um homem de sobretudo investiga uma estação de brt abandonada dominada por mato

Causa mortis: mato, furto e a teoria do banco ausente


O que foi prometido: estações modernas, acessíveis, com infraestrutura adequada — bancos, lixeiras, piso tátil, iluminação, identificação visual.


O que aconteceu: Na Estação Jardim Miranda, passageiras esperam meia hora ou mais em pé. Na Estação Vila Teixeira, o mato no canteiro cresceu acima de dois metros — mais alto do que algumas passageiras — chegando a encobrir as placas de identificação. A passageira Rosângela, de 1,49 m de altura, resumiu: "Tá mais alto do que eu. Faz muito tempo que não corta." Pisos táteis quebrados comprometem a acessibilidade de pessoas com deficiência visual. Entre os principais alvos de furto nas estações estão cabos e fiação elétrica — e quando a fiação vai, vai junto a iluminação e os painéis informativos.


Sobre a ausência de bancos, a Emdec tem uma justificativa que merece atenção: vandalismo e furto. A solução adotada foi não repor o mobiliário. Resultado: as estações do BRT, em 2026, têm menos infraestrutura do que um ponto de ônibus comum. O usuário paga uma passagem de R$ 4,50, entra no sistema de R$ 975 milhões e fica em pé, ao sol, em frente a uma estação sem banco, com mato até a cabeça, esperando um ônibus que pode ou não aparecer em 20 minutos.


A cena do crime: Em abril de 2026, durante o Fórum Paulista de Secretários de Mobilidade Urbana, a prefeitura organizou uma visita técnica ao BRT para cerca de 800 gestores de transporte do estado. O destino escolhido foi a Estação Ipaussurama — a única do sistema com passarela e a única que não foi construída pelo poder público, mas entregue como contrapartida pelo Shopping Parque das Bandeiras. As demais 26 estações, com seus matos e pisos quebrados, ficaram fora do roteiro. A Emdec explicou que a escolha seguiu "critérios logísticos."


Caso 6 — A Vítima: As Portas Automáticas Sincronizadas


um homem quebra um vidro enquanto um onibus passa batido ao lado

Causa mortis: chute de passageiro frustrado, instigado por sistema falho


O que foi prometido: portas de vidro nas estações que abrem sincronizadas com a chegada do ônibus — a principal inovação visual do sistema, símbolo do embarque em nível, da eficiência e da modernidade que o BRT representaria.


O que aconteceu: As portas apresentam falhas constantes. Travam abertas — o que compromete a segurança. Travam fechadas — o que faz o motorista não parar na estação e o passageiro perder o ônibus. A Emdec classifica cada episódio como "situação pontual" e garante manutenção em 15 minutos. O passageiro que perdeu o ônibus às 6h30 da manhã a caminho do trabalho tem uma perspectiva temporal diferente sobre o que é pontual.


A cena do crime: Em janeiro de 2025, câmeras da Estação Alberto Sarmento registraram um passageiro desferindo chutes nas portas de vidro após não conseguir embarcar num BRT25. Quatro lâminas quebradas, prejuízo de R$ 10 mil, caso enquadrado como vandalismo. A leitura alternativa — que a porta estava enguiçada, o ônibus foi embora e o homem já havia perdido outras viagens da mesma forma — não entrou na nota oficial. As duas leituras podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Só uma foi para o comunicado de imprensa.


O Inquérito Permanece Aberto


O BRT transporta mais de 73 mil pessoas por dia segundo a Emdec. No Corredor Campo Grande, há passageiros que economizam até 25 minutos por viagem em relação ao sistema anterior. Isso é real.


O que também é real: seis promessas centrais foram feitas a 425 mil pessoas e nenhuma delas foi entregue integralmente. O custo dobrou sem prestação de contas. O prazo morreu quatro vezes. A frota é velha e quente. As estações não têm bancos porque foram furtados e não foram repostos. As portas travam. O mato cresce.


Algumas perguntas que o campineiro tem o direito de fazer antes que o próximo edital seja assinado:

  • Por que um sistema projetado para servir a periferia foi desenhado para conduzir a periferia ao centro — e não para desenvolver economicamente a periferia em si?

  • O que aconteceu com os R$ 91 milhões pagos à empreiteira que abandonou a obra?

  • Quem autorizou a licitação de um projeto calculado sobre estimativa de custo — e não sobre projeto executivo?

  • Por que a resposta à falta de bancos foi removê-los, e não repô-los?


E a que conecta todas as outras:

  • se levamos 14 anos e R$ 975 milhões para entregar o que prometemos em 3 anos e R$ 539 milhões, qual é o plano para a nova licitação ser diferente?

  • Será que o caos dos ônibus que vivemos hoje é um acidente ou algo pensado desde 2011?


O "inquérito" está aberto. Campinas merece respostas antes do próximo “caso isolado”.


Referências


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