Lucro da Sanasa e Ameaça de Privatização
- 9 de abr.
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O paradoxo campineiro
A SANASA é tricampeã nacional no ranking de saneamento do Instituto Trata Brasil. Nota 10 em todos os quesitos. Universalização concluída em 2023, dez anos antes do prazo legal. Índice de perdas de água de 15,2%, contra uma média nacional de 39,5%. Em cinco anos, investiu R$ 1,35 bilhão em infraestrutura — recorde em meio século de existência.
E mesmo assim, o balanço de 2025 acendeu o sinal amarelo: lucro de R$ 66,8 milhões, uma queda de 64% em relação ao ano anterior. A dívida total chegou a R$ 1,63 bilhão. A empresa descumpriu covenants — cláusulas contratuais com bancos credores. O presidente da SANASA reconheceu: 2026 é o ano de "fazer mais com menos", porque o reajuste tarifário de 5,17% não cobre os custos reais, pressionados pela Selic a 15% e pelo dólar alto.
É nesse aperto que o discurso da privatização geralmente encontra oxigênio. Para ficar nítido: hoje não tem nenhuma ameaça concreta na cidade, mas pensamos que nossa atenção não deve diminuir.
A ameaça que já bateu na porta
Em meados de 2025, Campinas foi inscrita no UniversalizaSP, programa do governo Tarcísio de Freitas que organiza consórcios regionais de saneamento com abertura a concessões privadas. A adesão aconteceu sem consulta pública e sem debate na Câmara. Quando o sindicato dos trabalhadores e vereadores da oposição reagiram, a prefeitura recuou alegando "falha administrativa" — uma inscrição feita "por equívoco" ao aderir a outro programa estadual.
Campinas pediu exclusão "em caráter irrevogável". Mas a facilidade com que uma cidade que já universalizou o saneamento pôde ser incluída num programa de concessão revela o tamanho da pressão. O Sindae foi direto: os consórcios regionais do UniversalizaSP não criam empresas públicas — criam estruturas que facilitam a entrega ao setor privado.
O que o mundo aprendeu — e nós insistimos em ignorar
O Transnational Institute mapeou mais de 1.400 serviços reestatizados em todo o mundo desde 2000. A Alemanha devolveu 348 serviços ao controle público. A França, 152 — incluindo Paris, que retomou a água em 2008 após décadas sob gestão da Suez e da Veolia. Em Hamburgo, a população decidiu em referendo. Em Valladolid, na Espanha, vinte anos de gestão privada produziram aumento de 37% na tarifa; dois anos após a reestatização, a empresa pública economizou mais de 13 milhões de euros sem demitir ninguém.

O Brasil é o segundo país do mundo em reestatizações de água e saneamento, com 78 casos confirmados, segundo a Assemae (Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento). Em Itu, a concessão entregue ao grupo Bertin resultou no mais longo racionamento da história da cidade — as torneiras secaram em 2014. Em Manaus, após duas décadas de saneamento privatizado, apenas 12,5% do esgoto coletado é tratado. E a Aegea, maior empresa privada do setor, admitiu em acordos com o MPF o pagamento de R$ 63 milhões em propinas para obter e manter concessões em seis estados.
Segundo levantamentos compilados pelo Conjur a partir de estudos setoriais, a conta de água sob gestão privada nos Estados Unidos chega a custar 59% mais do que sob gestão pública. No Brasil, essa diferença foi estimada em 30% em 2022.
O que está em jogo
A SANASA precisa de equilíbrio financeiro. Precisa renegociar dívida, buscar revisão tarifária compatível com os custos reais e, possivelmente, apoio federal para sustentar investimentos em segurança hídrica diante das mudanças climáticas. Nada disso exige transferir para o capital privado uma empresa que entrega o que a esmagadora maioria do país não consegue.
Campinas é nota 10. O mundo tem mais de mil razões documentadas para não vender o que funciona. Nós precisamos e vamos ficar de olho.

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