Fábrica de Nomes: 76% das leis de Campinas ignoram os problemas reais da cidade
- Marcelo Nisida
- 10 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: há 6 dias

Se você acha que a Câmara Municipal de Campinas passou o primeiro semestre de 2025 debatendo o déficit habitacional ou a crise na saúde, os dados da Transparência têm um balde de água gelada para te entregar. Um levantamento minucioso revela que 3 em cada 4 leis aprovadas entre janeiro e junho foram apenas protocolares: nomes de ruas, criação de datas comemorativas e títulos de utilidade pública. Enquanto a cidade real clama por soluções, a "cidade do papel" se preocupa em batizar esquinas.
A Anatomia do Desperdício Legislativo
Dos projetos aprovados no primeiro semestre, o cenário é desolador para quem espera políticas públicas de impacto:
76% Nomeações e Datas: Um combo de 81 leis que tratam de nomes de ruas, praças e o famigerado calendário oficial de datas (que ninguém consulta).
17% Leis Complementares: Apenas 18 projetos que realmente mexem na estrutura da Lei Orgânica do município.
7% Outros Temas: Onde moram os projetos "reais", como liberação de crédito, regulação de eventos e o funcionamento da EMDEC.

O Ranking dos "Batizadores"
Não é um esforço coletivo de falta de prioridade; alguns partidos e nomes se destacam na arte de legislar sobre o óbvio. Os partidos Republicanos (21 nomeações), PSB (18) e PL (16) lideram a fila da perfumaria.
No topo do pódio individual, o vereador Luiz Rossini cravou 10 nomeações, seguido de perto por Débora Palermo (9) e Guida Calixto/Rubens Gás (6). É curioso notar que até o Executivo Municipal entrou na dança, com 5 projetos desse tipo.

A quem serve o silêncio sobre os grandes temas?
A relevância de dar nome a uma rua ou reconhecer uma entidade é inegável para a memória da cidade, mas quando isso se torna a atividade principal do Legislativo, temos um problema de representatividade.
Por que as comissões de Saúde e Educação (aquelas que vivem cancelando reuniões, lembra?) não estão gerando leis que garantam remédios ou vagas em creches com a mesma velocidade que criam o "Dia de Qualquer Coisa"? Legislar sobre o que é difícil dá trabalho, exige estudo e, muitas vezes, embate com a Prefeitura. Dar nome de rua é seguro, bonitinho e rende foto no Instagram.
A cidade que sobra no papel
Enquanto a Câmara comemora a produtividade em números absolutos, o campineiro sente o vazio das leis que não existem: as que deveriam regular o preço da tarifa, a transparência das OSs e o plano de metas para a periferia.
A democracia local não pode ser um carimbo de homenagens. A gente precisa de vereadores, não de cerimonialistas.

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