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Feminicídio terceirizado

  • 6 de mar.
  • 2 min de leitura

Os agressores adicionaram uma camada de violência e as mulheres estão morrendo sozinhas


Campinas chega a este 8 de março com um recorde que não cabe em comemorações: 1.777 notificações de violência contra a mulher em um único ano. Os dados são do Boletim Sisnov, da Prefeitura de Campinas. É o maior registro da história da cidade. O dado revela que, apesar da criação da nova Secretaria da Mulher e outras políticas implementadas, o poder público só fica sabendo da violência quando o sangue já escorreu ou quando a mulher chega ao limite do desespero. Na prática, a cidade está assistindo ao colapso de milhares de vidas sem conseguir chegar antes do agressor. Segundo reportagem do G1 Campinas, foram 65 feminicídios desde 2015.


tabela mostra 65 feminicidios em campinas desde 2015

A realidade é que o lugar mais perigoso para uma mulher continua sendo a sua própria casa. Em mais de 42% dos casos de notificações de violência por mulheres, em Campinas, o carrasco é o cônjuge ou o ex-companheiro. É aquela violência silenciosa, que acontece entre quatro paredes e que as políticas públicas ainda não aprenderam a interromper ou coibir.


gráfico de linhas mostra crescimento de notificações de violência contra mulher em Campinas de 2020 a 2024

Quando o Estado falha em oferecer segurança e independência para essa mulher sair de um ciclo de abuso, ele acaba sendo cúmplice. O resultado é cruel: os homens muitas vezes nem precisam se esforçar para dar o golpe final; a negligência do sistema faz com que as mulheres morram sozinhas, destruídas por dentro. O gráfico de suicídio é assustador, ainda mais de 2022 para cá.


Isso fica provado quando olhamos para a saúde mental. As tentativas de suicídio entre mulheres em Campinas quase quadruplicaram nos últimos anos. Elas são a maioria absoluta (70%) das notificações de quem tenta tirar a própria vida na cidade. É o feminicídio terceirizado. Se a rede de saúde e de assistência não dá conta de acolher essa agonia, a mulher acaba sucumbindo. Não adianta ter uma nova secretaria no papel se, na ponta do bairro, a menina ainda sofre violência sexual.


Pela primeira vez na série histórica apresentada, a violência sexual se tornou o tipo mais comum de violência notificada contra crianças em um único ano, com 260 casos, o equivalente a 36,8% do total de 707 notificações infantis de 2024.

gráfico de linhas mostra crescimento de notificações de violência contra mulher em Campinas de 2020 a 2024, com destaque para suicídio

Precisamos falar sério: infelizmente o 8 de março segue sendo sobre sobrevivência. A nova Secretaria da Mulher tem o desafio urgente de provar que não é apenas uma mudança de nome em um prédio oficial, mas uma estrutura capaz de tirar Campinas desse recorde vergonhoso. A cidade não pode continuar aceitando que suas cidadãs sejam empurradas para o abismo, seja pelas mãos de quem dorme ao lado delas, seja pelo abandono de um Estado que sempre chega tarde demais.

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