A greve é para te incomodar
- há 6 dias
- 7 min de leitura
Estudantes e servidores da Unicamp, USP e Unesp estão em greve. Uma manifestação bloqueou a Rodovia Dom Pedro I esta semana em Campinas. Nos atos recentes, a resposta do Estado foi gás lacrimogêneo. A resposta da reitoria foi silêncio. O que está em disputa não é o trânsito — é quem decide o futuro de uma das principais universidades da América Latina, e se essa decisão vai ser feita por toda a sociedade ou por uma elite muito pequena e muito poderosa.

O incômodo não é efeito colateral
Todo direito social que existe hoje veio de alguém que um dia parou, ocupou, pressionou. Férias remuneradas, salário mínimo, jornada de oito horas — nenhum desses direitos foi concedido voluntariamente por quem detinha o poder. Foram conquistados por mobilização coletiva, greves e pressão organizada. A greve das universidades estaduais paulistas é o mesmo mecanismo pelo qual problemas invisíveis ao público geral se tornam visíveis e exigem resposta política.
Movimentos que não perturbam não mudam nada. Florestan Fernandes fala sobre como as estruturas de poder no Brasil nunca cederam por vontade própria, sempre foi a organização e pressão de baixo pra cima que faz efeito. O bloqueio na Dom Pedro é exatamente isso: uma ação coletiva que força uma questão invisibilizada a aparecer no espaço público, de baixo pra cima. O incômodo é a função, mesmo que por apenas algumas horas.
Há um argumento recorrente contra greves universitárias: "não me interessa, não sou da universidade." É uma ilusão confortável. Quando alguém usa o SUS, quando se beneficia de uma pesquisa agrícola que barateou o alimento no mercado, ou confia num médico formado numa universidade pública, está usufruindo do resultado de decisões políticas e pressão coletiva acumulada ao longo de décadas. A ideia de que "política não me diz respeito" é o privilégio de quem ainda não percebeu que já é afetado ou a ilusão de quem pode se dar ao luxo de não ser.

A filósofa Marilena Chauí, identifica que quando a política se transforma em gestão técnica, os direitos deixam de ser disputados e passam a ser "concedidos" por administradores supostamente competentes, longe do debate público. Direitos viram serviços. Cidadãos viram consumidores. E o espaço que a sociedade deixa vazio é instantaneamente ocupado por quem já tem poder para preenchê-lo. Não se posicionar diante de um processo de desmonte é concordância passiva com o que está sendo feito. A ideia de que existe uma “técnica” pura, distante da política, é narrativa para afastar a sociedade da conversa que define o seu futuro.
A Unicamp não é só uma universidade
A Unicamp é uma das principais universidades da América Latina. Forma médicos, engenheiros, pesquisadores. Desenvolveu vacinas, tecnologias agrícolas e inovações em saúde pública. Seus resultados chegam ao SUS, à indústria, às políticas públicas. É o tipo de instituição que só existe como universidade pública porque sua missão não é lucrativa e muitas pessoas batalharam para que fosse assim. As universidades estaduais paulistas respondem por 38% da pesquisa científica produzida no Brasil. Atacá-las por dentro, com um sucateamento devagar e constante, é atacar a capacidade do país de produzir conhecimento soberano.

Uma universidade que precisa se financiar sozinha, buscando receitas próprias para sobreviver, deixa de ser uma universidade pública e se torna uma empresa. Marilena Chauí fala de "universidade operacional" para descrever quando a instituição abandona sua função crítica e formadora e passa a operar por critérios de eficiência e resultados mensuráveis, perde sua razão de ser como bem comum — sem que nenhuma decisão isolada pareça definitiva.
A ameaça de autarquização do Hospital das Clínicas da Unicamp é um movimento nessa direção. Deslocar sua gestão para a Secretaria de Saúde do Estado significa fragmentar a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão garantida pelo artigo 207 da Constituição Federal, abrir campo para critérios de custo-eficiência onde deveria haver autonomia universitária e foco no atendimento de excelência. O argumento principal é o financeiro, mas isso não pode ser resolvido com a transferência de estruturas estratégicas, submetendo mais a interesses de governos passageiros.
O desmonte não tem data
Nenhum decreto vai anunciar "a Unicamp acabou". O que acontece é mais lento e mais eficaz: o CRUESP propõe reajuste de 3,47% para servidores e docentes — abaixo da inflação acumulada, o que significa perda real de poder de compra ano a ano. Vagas não são repostas. Professores não são contratados. Infraestrutura se deteriora sem reforma. Serviços essenciais são terceirizados. Alunos não tem permanência garantida. Cada decisão isolada pode parecer administrável e “técnica”, por isso precisamos chamar atenção e nos incomodar com o todo político.
No campus de Limeira, estudantes documentaram em carta dirigida à Reitoria o resultado acumulado desse padrão. Salas com infiltração e mofo, elevadores quebrados por meses — obrigando trabalhadoras da limpeza a subir escadas com equipamentos pesados —, climatização inoperante em clima de calor intenso, laboratórios com equipamentos tão defasados que professores compram materiais com o próprio dinheiro, banheiros sem papel e sabonete, internet instável, computadores sem capacidade para rodar os softwares dos cursos. Isso é o resultado acumulado de anos de subinvestimento em uma das principais universidades da América Latina.
Quando a situação chega ao colapso, reverter custa muito mais, tanto financeira quanto institucionalmente, do que teria custado evitar. Esse é o cálculo que grupos poderosos fazem quando apostam no silêncio da sociedade. Para o interesse público, é melhor a gente se incomodar agora do que lamentar depois que “era inevitável”.
Quem mais perde quando a universidade pública se deteriora
Há outro argumento frequente: "universidade pública é coisa de elite que estuda de graça e ainda reclama." O argumento se faz de elegante, mas está errado. Quem tem dinheiro manda o filho para uma universidade particular de qualidade, para fora do país ou para públicas de qualidade, mas são muito menos afetados pelas condições precárias. Quem depende da universidade pública bem estruturada é o estudante de escola pública, periférico, de primeira geração na família no ensino superior, indígena, mãe que concilia maternidade e graduação. A precarização da Unicamp é uma política que afeta de forma desproporcional quem já tem menos acesso ao direito de uma educação de qualidade.
No Brasil, a gente tem uma escola para quem pode pagar e outra para quem não pode. Nosso direito e a democracia só vão existir mesmo quando esse projeto deixar de ser verdade. A universidade pública é a extensão mais alta desse projeto, o lugar onde, pela primeira vez na história brasileira, filhos de trabalhadores podem ocupar os mesmos espaços de produção de conhecimento que historicamente pertenciam apenas às elites. Sucateá-la é aprofundar a desigualdade evidente e crescente na história do país. A educação que liberta é a que permite ao sujeito compreender sua realidade e agir sobre ela, lembrando Paulo Freire. Uma universidade sem condições de acolher quem mais precisa está reproduzindo a exclusão com verniz institucional e técnico.
Em Limeira, estudantes dependem de Bolsa Auxílio Moradia que não acompanha a especulação imobiliária e perdem o benefício automaticamente ao conseguir estágio, mesmo que o salário não cubra aluguel, transporte e alimentação. Não existe moradia estudantil, apesar de prometida há três anos. Para acessar especialidades médicas no CECOM, o estudante de Limeira precisa realizar dezenas de ligações para conseguir consulta e, com a epidemia de problemas de saúde mental, é preocupante não haver atendimento especializado na mesma cidade da universidade.
O que o movimento está exigindo
As pautas da greve atravessam os três setores — estudantes, servidores e docentes — e as três universidades. No centro estão a rejeição ao índice de reajuste proposto pelo CRUESP, a oposição à autarquização do Hospital das Clínicas e as condições de infraestrutura mínimas das universidades. Em Barão Geraldo, o DCE-Unicamp organiza suas reivindicações específicas sob o mote "Expansão sem precarização: dignidade para morar, estudar e trabalhar". As pautas levantadas incluem:
Moradia estudantil em Limeira
Expansão do SAVS, SAER e SAPPE — serviços de saúde, acessibilidade e apoio psicológico
Fim da contrapartida da Bolsa Auxílio Moradia que penaliza quem consegue estágio
Acessibilidade nos campi
Intercamp para Piracicaba
Conclusão do Teatro Laboratório
Contra a autarquização do Hospital das Clínicas
Contra a terceirização de serviços essenciais
Pelo afastamento do governador Tarcísio de Freitas das decisões sobre as universidades estaduais
Quando o diálogo se fecha, a polícia entra
A greve não começou com um bloqueio de rodovia. Começou com assembleias, cartas, e-mails e reuniões que não aconteceram. O campus de Limeira aprovou a greve em assembleia com mais de 450 estudantes, depois de anos de reivindicações documentadas — promessas assinadas pela Reitoria em 2023, reafirmadas em 2025, ignoradas na sequência. Barão Geraldo entrou no debate logo após. A mobilização se articulou com trabalhadores e docentes da USP, que já estavam em greve, e da Unesp.

O primeiro ato conjunto foi no CRUESP. As reivindicações estudantis foram descartadas da pauta. Trabalhadores e estudantes, em unidade, rejeitaram essa posição e a reunião foi cancelada. Antes de remarcar, o reitor da USP se posicionou publicamente: não queria negociação com estudantes. Em protesto, a resposta dos estudantes foi ocupar a reitoria da USP. A resposta do Estado foi a Polícia Militar.
Estudantes foram retirados da reitoria da USP com violência. No ato seguinte, convocado para o dia da nova reunião do CRUESP — com ônibus de Limeira, Campinas e campi da Unesp —, a polícia dispersou os manifestantes com gás lacrimogêneo. Viaturas da Polícia Militar chegaram a entrar no campus da Unicamp de manhã cedo, armadas com fuzis, estacionadas em frente à reitoria. A reitoria da Unicamp não se posicionou contra nenhum desses episódios. O silêncio diante de fuzis dentro do próprio campus é um posicionamento tenebroso.
Diante de toda essa história, precisamos nos perguntar:
A quem serve um Hospital das Clínicas desvinculado da Unicamp — à comunidade ou à lógica e interesses de mercado?
Se moradia estudantil foi prometida em 2023 e não foi entregue, o que torna a próxima promessa diferente das anteriores?
Quando uma universidade silencia diante de violência contra seus próprios estudantes, ela ainda está cumprindo sua missão pública?
A greve incomoda porque é para incomodar. Todo direito que existe hoje foi conquistado por alguém que também se incomodou antes. A Unicamp não vai acabar com um decreto, mas está sendo esvaziada por dentro, um corte de cada vez, na calada da noite. Campinas vai deixar essa decisão passar em silêncio?
Referências
https://uspcaf.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/11/escrito-sobre-a-universidade.pdf
https://iberian-connections.yale.edu/wp-content/uploads/2020/03/CONTRA-A-SERVIDAO-VOLUNTARIA.pdf
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
Carta das lideranças estudantis da Unicamp Limeira à Reitoria (maio de 2026)

Comentários