A Escola que Campinas Construiu Está Sendo Vendida
- 3 de jun.
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Uma professora em Campinas geralmente conhece cada criança da sala dela pelo nome, pela história, pelo jeito de aprender. Sabe qual não tomou café antes de vir. Sabe qual trava na leitura porque em casa não tem livro, nunca teve. Sabe qual só entra no assunto quando a aula começa com uma história. Esse conhecimento pode até estar nos livros, mas se consolida mesmo com anos dentro daquela escola, daquele bairro, construindo junto com os pais e com os outros professores uma forma de ensinar que faz sentido para aquelas crianças que vivem aquela realidade específica. É esse conhecimento construído que a nova gestão da Secretaria Municipal de Educação de Campinas está descartando.
Desde outubro de 2025, quando Patrícia Adolf Lutz assumiu o cargo, a rede municipal vive o que os diretores, vice-diretores, supervisores, orientadores e coordenadores pedagógicos das próprias escolas descrevem como silenciamento sistemático. No dia 26 de maio, coletivos que organizam a resistência ativa pública da categoria, como o CTL — Coletivo de Trabalhadores em Luta, o Coletivo de Educadoras/es da Rede Municipal de Campinas, o 13 de Outubro e Nossa Classe, foram para a frente da Prefeitura protestar. São esses grupos que, sem proteção jurídica garantida e sem estrutura de sindicato, estão dispostos a aparecer. A Assemec, que também esteve presente, entidade que representa diretores, vice-diretores, supervisores, orientadores e coordenadores pedagógicos da rede, colocou alguns pontos em carta pública em maio de 2026 — citando violação direta da Constituição Federal e da Lei de Diretrizes e Bases.
O que Campinas tinha antes de entender o que está perdendo?
A nossa rede municipal é referência nacional não por acidente. Décadas de aposta numa ideia que parece óbvia mas exige trabalho: cada escola precisa conhecer seu território. Uma escola no Jardim Itatinga e uma escola no Cambuí não podem ter a mesma proposta pedagógica, porque as crianças que chegam nesses dois lugares chegam de mundos diferentes. A proposta de o que e como ensinar sempre foi construída coletivamente, com professores, coordenadores, diretores, pais. Leva décadas, mas funciona. A nova gestão centralizou tudo isso num gabinete.

Agora quem decide o que as crianças de Campinas vão aprender é a secretaria. Sem ouvir escolas, sem ouvir professores, sem ouvir famílias. Segundo a carta da Assemec, a secretaria encerrou o Conselho Consultivo de Gestores, fechou comissões de trabalho, restringiu reuniões coletivas e proibiu o uso de e-mails como canal de comunicação entre escolas e secretaria. No lugar, dois boletins semanais vagos, às vezes republicados com correções, sem espaço para nenhuma pergunta. As escolas não conseguem nem perguntar o que está acontecendo.
E a plataformização que parece ser o destino do modelo estadual já chegou em Campinas. Em 2025, a secretaria aplicou avaliações diagnósticas por plataforma digital — contra toda a política de avaliação construída coletivamente pela rede. Crianças choravam de ansiedade diante das telas. Em 2026, os "pactos" de avaliação padronizada trimestrais chegaram com 22 questões para crianças pequenas já no primeiro trimestre. Como denuncia o Coletivo de Educadoras/es da Rede Municipal: "o professor deixa de ser o autor de sua prática para se tornar um operador de plataforma."
Para entender o tamanho do que está sendo perdido, é preciso saber o que existia antes. Desde 2003, a rede municipal de Campinas tem uma Carta de Princípios sobre avaliação que diz explicitamente: avaliação não deve ser instrumento de controle sobre a escola e os profissionais, não deve gerar ranking, não deve punir ou premiar por resultados. Uma concepção de qualidade que considera não só o desempenho cognitivo, mas as dimensões política, ética, afetiva, corporal e criativa da formação humana. Vinte e três anos de história construída coletivamente. É isso que uma avaliação diagnóstica aplicada por plataforma — com crianças chorando de ansiedade diante de uma tela — está atropelando.
Eficiência? Para quem?
Sei que é difícil de imaginar, mas pense numa linha de ônibus que obriga todo mundo a passar pelo centro antes de chegar ao destino. Não importa de onde você sai nem para onde vai. Tudo passa por um ponto só. O resultado não é agilidade. É congestionamento. O sistema inteiro trava porque um único ponto não aguenta absorver tudo.
É o que acontece quando a proposta pedagógica de uma rede inteira passa a ser decidida num gabinete central. Cada escola, cada professor, cada família que precisa de uma resposta fica esperando o sinal vir de cima. A ponta paralisa. E as crianças ficam no meio disso. Centralização não é eficiência. É a aparência de eficiência. No fundo, é controle.
A secretaria usa muito a palavra eficiência. É a palavra favorita de gestões que aplicam lógica de empresa a serviço público. O problema é que a conta não fecha nem pelos critérios deles.
A rede municipal tem supervisores, orientadores pedagógicos e coordenadores que passaram em concurso público, construíram carreira dentro das escolas e conhecem os territórios da cidade. Desde 2024, essas pessoas estavam fazendo exatamente o que a secretaria diz precisar de consultoria externa: atualizando coletivamente as Diretrizes Curriculares Municipais. Em 2024, escolas, NAEDs e coletivos leram, debateram e escreveram. Em 2025, equipes inteiras dedicaram horas de trabalho para consolidar sugestões vindas de toda a rede. Em 2026, os grupos de escrita já estavam organizados para concluir. Eram dois anos de trabalho, milhares de horas-projeto pagas com dinheiro público. Desde a posse da nova secretária, tudo está paralisado.
Quando a secretaria contrata a consultoria privada F&F Educare, de Maria Inês Fini, para fazer esse trabalho, não está economizando nada. Vai pagar duas vezes: uma pelos servidores que continuam no cargo, outra pela empresa que passa por cima deles. O contrato atual é de R$ 480 mil, a R$ 1.500 por hora, sem licitação — autorizado e assinado pela própria Patrícia Lutz, que acumula o cargo de secretária com o de presidente da FUMEC. Mas esse não é o primeiro contrato. Entre 2023 e 2025, a Fini & Fini já recebeu mais de R$ 700 mil da FUMEC pelo mesmo mecanismo, sem licitação. O valor acumulado ultrapassa R$ 1,1 milhão pago à mesma empresa, sem comparar propostas, sem concorrência, sem transparência.
E o risco não é hipótese. As Diretrizes Curriculares da FUMEC já foram finalizadas pela Fini & Fini — não pela rede. O que os educadores temem para as Diretrizes Curriculares Municipais já aconteceu dentro da própria prefeitura, a portas fechadas, com dinheiro público e sem que ninguém fosse consultado.
Mas a consultoria entrega algo que o servidor público não entrega: um produto empacotado, replicável, com margem de lucro. É assim que consultoria pedagógica vira contrato de plataforma digital, que vira contrato de material didático, que vira dependência permanente de fornecedor privado. Tudo pago com dinheiro público. Tudo decidido longe da escola. Tudo alheio ao que aquela professora sabe sobre aquela criança que chegou sem ter comido.
”Eficiência”, dizem. “Para quem?”, fica a pergunta.
O modelo do estado
O governo estadual concedeu 33 escolas públicas para a iniciativa privada por 25 anos. A Justiça chegou a suspender o decreto — com a magistrada apontando que a Constituição não permite terceirizar a gestão do ensino público —, mas o STF reverteu a decisão e autorizou as PPPs que tiveram repasse previsto de R$ 6 bilhões. As escolas foram leiloadas na bolsa de valores. Plataformas digitais impostas às escolas custaram R$ 471 milhões em 2024, enquanto o governo desviava R$ 10 bilhões do orçamento da educação para outras áreas. Pesquisa da Rede Escola Pública e Universidade comprovou que o modelo não melhorou o desempenho dos alunos. O secretário estadual Renato Feder é sócio de uma offshore com participação na Multilaser, empresa que recebeu R$ 83 milhões em contratos com a própria secretaria que ele comanda. O Ministério Público investiga.
O material digital que ficou no lugar dos livros tinha erros que seriam cômicos se não fossem trágicos: slides afirmando que a cidade de São Paulo tem praias, que a Lei Áurea foi assinada por D. Pedro II, que Parkinson e Alzheimer são transmitidas por água.
E as professoras estão adoecendo nesse processo. Noventa e cinco afastamentos diários por saúde mental, segundo dados do próprio estado. Em Diadema, uma professora passou mal durante uma reunião pedagógica em que questionava o excesso de cobranças. Morreu. Uma pesquisa da Apeoesp com mais de 22 mil pessoas mostrou que 94% da comunidade escolar classifica essa gestão como ruim ou péssima.
Carolina Catini, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, e Gustavo Mello, economista da UFES, analisaram o avanço desse modelo em São Paulo e nomearam a lógica: precarizar para privatizar. Primeiro esvazia o serviço público — corta o diálogo, centraliza as decisões, ignora quem trabalha na escola. Depois, quando a escola já não funciona bem, a empresa privada aparece como solução. É o roteiro trágico e repetidamente usado.
As empresas vencedoras do leilão paulista não têm histórico em educação. Uma administra cemitérios. A outra é uma gestora de fundos fundada por ex-executivos de banco. Para elas, como apontam Catini e Mello, tanto faz se o ativo é uma rodovia ou uma sala de aula — o que interessa é o contrato, o controle e a margem.
Em fevereiro de 2026, a secretária de Campinas deu uma entrevista citando que apenas 41% das crianças terminam o 2º ano alfabetizadas — e usou esse número para justificar a intervenção. O que ela não disse é que a rede de Campinas é organizada em ciclos, e as crianças têm até o 3º ano para se alfabetizar. Pressionar por índice no 2º ano não é política séria de alfabetização — é transformar a escola num centro de treinamento para provas, produzindo, nas palavras do Coletivo de Educadoras/es, "leitores mecânicos que não compreendem o que leem". O problema não é a criança. É a métrica escolhida para medir uma realidade que ela não consegue capturar.
Mas há algo anterior a qualquer discussão curricular que o texto da secretaria nunca menciona: as condições em que as professoras trabalham. Salas superlotadas. Calor. Falta de profissionais de apoio. Um único professor para dar conta de tudo. Como dizem os educadores da rede: "Querem resultado? Ofereçam condições dignas."
Campinas não está sendo leiloada na B3. Ainda. Mas centralizar o currículo no gabinete, fechar os espaços coletivos, pagar milhares de reais sem licitação por um trabalho que os servidores da rede já fazem — são exatamente os passos que precederam esse destino em São Paulo. Quem quiser ver o futuro, é só olhar para o governo do estado.

Campinas está no começo desse caminho.
Na manifestação do dia 26 de maio, os movimentos trouxeram uma pauta que não pode ficar de fora. Em janeiro de 2026, foi sancionada a Lei 15.326, que reconhece as professoras da educação infantil — as que trabalham em creches e pré-escolas com crianças de zero a cinco anos — como integrantes do magistério, com direito ao piso salarial nacional. São mulheres que carregam o cuidado e a formação da primeira infância há anos, tratadas como trabalhadoras de segunda categoria dentro do próprio sistema que dizem valorizar a educação.
A lei foi sancionada. Mas quem implementa é cada município. Campinas ainda não implementou. Numa gestão que não conversa com os profissionais da educação, cobrar isso exige pressão pública, constante, sem parar.
Tem gente na educação de Campinas com medo de falar. Não é figura de linguagem. É medo de assédio, de perseguição. Uma gestão que fecha canal de comunicação, encerra espaços coletivos e substitui reuniões por boletim que não aceita resposta é uma gestão que ensina a ficar quieto. Professoras, diretoras, coordenadoras têm carreira, têm família. O silêncio não é covardia. É a conta que elas fazem todo dia.
Por isso a Minha Campinas escolhe falar. Colocamos nossa voz aqui para que quem não pode aparecer não precise aparecer. Para que a denúncia chegue sem custar o emprego de ninguém.
O que está em risco não é uma simples disputa de gestão. É a escola que uma criança vai encontrar quando chegar lá. Se vai ter uma professora que construiu junto com a comunidade um jeito de ensinar que faz sentido para aquele lugar, ou uma escola cumprindo roteiro de consultoria contratada a milhões, alheia ao bairro, alheia àquelas crianças, atenta só ao contrato.
Pergunte ao seu vereador
Copie, mande por WhatsApp, leve à audiência pública.
Por que contratar uma empresa de fora se a prefeitura já paga supervisores e coordenadores concursados para fazer exatamente esse trabalho?
Por que o Conselho Consultivo de Gestores foi encerrado? Quem autorizou e com base em quê?
As professoras da educação infantil de Campinas já foram enquadradas no magistério, como determina a Lei Federal 15.326 de janeiro de 2026? Se não, qual é o prazo?
Quantos profissionais da rede municipal estão afastados por problemas de saúde mental? Esse número mudou desde novembro de 2025?
Por que a secretaria proibiu o uso de e-mails entre escolas e secretaria? Quem decidiu isso?
Pais, alunos, professores e diretores foram consultados antes da reformulação da proposta pedagógica? Se sim, quando e como? Se não, por quê não?
Referências
https://drive.google.com/file/d/13NZXuUQ_wlVbnds0KhnyaKYHAriR2aH8/view?usp=sharing
https://www.fumec.sp.gov.br/licitacoes/contratacoes-diretas-inexigibilidade-032026
https://revistaforum.com.br/brasil/avaliacao-educacao-tarcisio/
https://causaoperaria.org.br/2025/assedio-do-governo-tarcisio-mata-professora-em-sao-paulo/
https://coletivoeducampinas.substack.com/p/recomposicao-de-aprendizagens-ou
https://coletivoeducampinas.substack.com/p/diretrizes-curriculares-municipais-955
https://blogdaboitempo.com.br/2024/11/11/escolas-leiloadas-na-bolsa-de-valores-que-educacao-e-essa/

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