252 Anos Sem Festa
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Um PL quer transformar o 14 de julho em feriado municipal. Mas a questão que ele levanta é anterior à lei: por que nunca fizemos isso?

Existe um tipo de constrangimento silencioso entre campineiros: o de não saber responder perguntas básicas sobre a própria cidade. Quando Marcelo, que faz parte da equipe da Minha Campinas, começou a refletir sobre isso em voz alta, descobriu que o sentimento é compartilhado por uma quantidade surpreendente de pessoas.
"Eu morei a vida inteira em Campinas e nunca me senti daqui de verdade. Reduzia a cidade a shopping, cinema e talvez uma ida ao Taquaral. Não é que eu não gostasse — é que eu nunca tinha aprendido a conhecer."
Essa relação morna com a própria cidade não é defeito individual. É consequência de uma história mal contada. Nos livros didáticos e no imaginário coletivo, Campinas aparece quase sempre reduzida a um nome: Carlos Gomes. Uma estátua, uma ópera, uma avenida. Como se a cidade tivesse parado no século 19 — e como se o século 19 campineiro coubesse inteiro na biografia de um compositor.
O resultado previsível é a piada repetida sem pensar: "é São Paulo menor", "não tem nada pra fazer", "é a cidade do trânsito". Piadas que não são falsas do ponto de vista de quem as conta — porque quem não conhece a própria cidade só vê o que sobrou depois que a narrativa oficial jogou fora o resto.
A Campinas que ficou de fora do livro
Laudelina de Campos Melo nasceu em Poços de Caldas em 1904, mas foi em Campinas que ela construiu, em 1961, a Associação Profissional dos Empregados Domésticos — a base organizativa que viria a se tornar, em 1988, o primeiro sindicato de trabalhadoras domésticas do Brasil. Laudelina morreu em 1991, na mesma cidade onde passou a maior parte da vida. Poucas escolas municipais levam seu nome. Nenhuma estátua no centro.
Campinas também é a cidade com uma das cenas de hip hop mais antigas e vivas do país. O Conselho Municipal do Hip Hop de Campinas, criado em 2004, é um dos primeiros do Brasil — e a região metropolitana concentra mais de 300 grupos mapeados. Uma cultura que movimenta jovens, territórios e economia criativa há décadas, praticamente invisível nos materiais de comunicação institucional da cidade.
E existe o Parque Oziel. Em 1997, uma das maiores ocupações urbanas da América Latina tomou forma em Campinas. Hoje o território abriga cerca de 100 mil pessoas. É bairro. É cidade dentro da cidade. Mas não aparece no roteiro turístico oficial, e dificilmente aparece quando se fala do que "faz" Campinas ser Campinas.
Reconhecer essa Campinas — a de Laudelina, do hip hop, do Oziel e do Mandela — não é um exercício de nostalgia alternativa. É o pré-requisito para qualquer relação não superficial com o lugar onde se vive. Identidade é pré-condição de transformação política. Não se luta por uma cidade que não se sente como própria.
Em 12 de fevereiro de 2026, a vereadora Paolla Miguel (PT) protocolou na Câmara Municipal de Campinas o Projeto de Lei Ordinária que institui o dia 14 de julho — já fixado como aniversário de Campinas pela Lei Municipal 3.984 de 1971, na gestão do então prefeito Orestes Quércia — como Feriado Municipal Cívil.
A Lei Federal 9.093/1995, em seu artigo 1º, inciso III (alterado pela Lei 9.335/1996), atribui aos municípios competência para instituir feriados civis que celebrem a data de fundação local. Campinas completou 250 anos em 2024. A data de 14 de julho já existe no calendário oficial. O que falta é o reconhecimento formal como feriado.
A Minha Campinas endossou formalmente o projeto em ofício assinado e encaminhado à Câmara em 13 de março de 2026. O PL já passou por comissão temática e segue em tramitação.
A justificativa da vereadora aponta para três efeitos concretos: a possibilidade de celebrações culturais e artísticas que valorizem a memória histórica da cidade, o potencial de dinamização econômica — a data coincide com períodos de recesso escolar e legislativo — e o fortalecimento do sentimento de pertencimento entre os munícipes.
Seria ingênuo afirmar que um dia no calendário resolve décadas de narrativa empobrecida. Um feriado não reconstrói, por si só, a memória de Laudelina nas escolas. Não garante que o hip hop campineiro vai aparecer nos materiais institucionais. Não apaga a invisibilidade histórica do Oziel.
Mas um feriado cria um dispositivo. Uma data coletiva — repetida todo ano, comemorada, disputada em seu significado — é uma das poucas ferramentas simbólicas que uma cidade tem para se perguntar, em voz alta e em conjunto: o que somos? O que queremos lembrar? Quem merece estar no centro dessa história?
Essas perguntas, feitas uma vez por ano, com escolas fechadas e espaço público disponível, têm o potencial de produzir respostas diferentes das que a narrativa oficial vem repetindo há décadas. E é exatamente isso — o espaço para outras respostas — que um feriado municipal pode abrir.
Pra mudar Campinas, a gente primeiro precisa se sentir dela. tO 14 de julho, como feriado, não é o fim do argumento. É o começo de uma conversa que Campinas está em dívida consigo mesma há muito tempo.

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