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156 razões para desistir em Campinas

  • 2 de abr.
  • 6 min de leitura

Campinas tem 800 funcionários de tecnologia, 200 sistemas digitais, chatbot com inteligência artificial e até podcast municipal. Ganhou prêmio de cidade mais conectada do país. Mas quando a Lucimar, de 59 anos, aposentada e com dores na coluna, liga pro 156, ninguém atende. Quando tenta resolver pela internet, o site dá erro. E quando vai pessoalmente ao balcão, ouve que falta um documento e precisa voltar outro dia. Lucimar diz que só recebe visita em época de eleição. No resto do ano, é invisível.


A história da Lucimar não é um caso isolado. É um padrão. E agora, pela primeira vez, temos números pra provar.


Telefone público do tipo orelhão, enferrujado e com o fone fora do gancho, abandonado em um terreno baldio com mato seco e terra vermelha. Ao fundo, desfocados, prédios modernos de vidro sob luz dourada de fim de tarde. A imagem contrasta o abandono da periferia com a prosperidade do centro urbano.

O que a pesquisa revelou

A FEAC encomendou ao Instituto Quaest, em setembro de 2025, uma pesquisa chamada "Vozes Campineiras". Foram 1.002 entrevistas presenciais e cinco grupos focais, com margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa mediu três índices em escala de zero a dez: Prosperidade, Pertencimento e Acesso a Serviços.


Os dois primeiros foram razoáveis: 7,3 e 7,8. O terceiro, porém, ficou em 5,9. Não é uma nota média. É a nota mais baixa entre os três pilares. E quando se desce ao nível dos bairros, a coisa desmorona.


Dois CEPs, duas cidades

A pesquisa construiu dois perfis fictícios baseados nos dados reais. O primeiro é João Marcos: branco, acima de 50 anos, heterossexual, sem filhos, renda alta, morador do Centro-Nordeste — região que inclui Cambuí, Sousas e Alphaville Dom Pedro. O segundo é Lívia: preta, 28 anos, mãe solo, renda baixa, moradora do Centro-Oeste — região de Chácara Campos Elíseos, Nova Aparecida e Jardim do Lago.


João Marcos marca 8,0 em prosperidade e 7,1 em acesso a serviços. Lívia marca 5,5 e 4,9.

Mesma prefeitura. Mesmos R$ 11,7 bilhões de orçamento em 2026. Mas o Estado que João Marcos conhece — e do qual, aliás, nem depende tanto, porque paga plano de saúde e escola particular — é um Estado completamente diferente do que Lívia enfrenta quando precisa de creche, de posto de saúde ou de um encaminhamento médico que nunca chega.


O labirinto do atendimento

A pesquisa mapeou o caminho que o campineiro comum percorre quando precisa do poder público. Começa pela informação: ela é dispersa, os canais são inacessíveis e não respondem. A população relata que o 156 — a linha direta entre cidadão e prefeitura, operada pela IMA, empresa de tecnologia do município — simplesmente não funciona como deveria. Em março de 2025, um cidadão registrou reclamação no Reclame Aqui relatando que o telefone sempre informa que os operadores estão ocupados e manda o cidadão pro WhatsApp, onde ninguém responde. A prefeitura, diga-se, opera o 156 apenas de segunda a sexta, das 8h às 18h. Se o problema do morador acontecer no sábado, paciência.


Quando o cidadão consegue passar pela porta de entrada, encontra a segunda barreira: burocracia e desrespeito. A pesquisa registrou que cada balcão dá uma regra diferente, que faltam documentos que ninguém avisou serem necessários, que as vagas nas escolas próximas de casa estão esgotadas. Um participante do grupo focal resumiu a experiência: o campineiro não consegue ser visto na sua trajetória em busca por dignidade e cidadania.


E quando a prefeitura resolve "modernizar" o atendimento e jogar tudo pro digital? Piora. A pesquisa ouviu que o atendimento digital, em vez de simplificar, empurra a burocracia para dentro da casa das pessoas. Idosos e pessoas com deficiência relataram não saber onde clicar, como concluir um pedido, qual documento anexar. Uma participante do grupo de pessoas com deficiência disse que tentou marcar consulta pelo aplicativo e nunca conseguiu — sempre dá erro. Uma pessoa idosa completou: não consigo resolver nada pelo celular, sempre dá que está fora do ar.


Segundo dados do IBGE de 2024, mais de 20 milhões de brasileiros são considerados excluídos digitais. Entre os que não usam internet, 52% são idosos e quase 46% dizem que simplesmente não sabem usar. Esse é o perfil exato de quem mais precisa do SUS, do CRAS e da assistência social em Campinas.


A matemática do abandono

Os números da pesquisa desenham um mapa da negligência. Quando perguntados onde a saúde pública recebe mais atenção do governo, 65% dos campineiros disseram que é no centro. Apenas 16% apontaram as áreas periféricas. Sobre ações culturais, o abismo é ainda maior: 81% no centro contra 7% na periferia.


A saúde pública aparece como o serviço de acesso mais difícil da cidade, com saldo negativo de 16 pontos percentuais — isto é, mais gente acha difícil acessar do que fácil. Das pessoas que apontaram saúde como o pior serviço, 76% disseram que o tempo de espera é alto. E nas regiões Centro-Oeste e Sudeste — justamente as mais pobres e mais negras da cidade — 58% e 60% dos moradores disseram que o atendimento é muito demorado.


No Centro-Nordeste, onde mora o João Marcos da pesquisa, o índice de acesso a serviços é 7,1. No Centro-Oeste, onde mora a Lívia, é 4,9. A diferença de 2,2 pontos numa escala de dez pode parecer abstrata, mas na prática ela se traduz em horas de ônibus, em consultas que nunca saem, em crianças sem vaga na creche e em mães que não podem trabalhar porque o filho com autismo não tem auxiliar de suporte na escola.


A cidade mais conectada — para quem?

Há uma ironia estrutural aqui que não pode ser ignorada. Campinas abriga a IMA, uma empresa pública de tecnologia com quase cinco décadas de existência, 800 funcionários e orçamento de R$ 16,9 milhões previsto na LOA em 2026. A empresa se apresenta como especialista em "inteligência digital para a gestão pública", mantém mais de 210 quilômetros de fibra óptica, opera chatbots, e ajudou Campinas a ser reconhecida em 2019 como a cidade mais conectada e inteligente do Brasil.


No PPA 2026-2029, a prefeitura promete "modernizar e fortalecer a infraestrutura digital da administração municipal" para garantir "serviços públicos ágeis e de qualidade focados no cidadão." A linguagem é impecável. O problema é que, na ponta, o cidadão não sente nada disso.


Enquanto a gestão comemora prêmios de conectividade e chatbots premiados, o morador da periferia que precisa de um encaminhamento médico fica preso entre um 156 que não atende, um aplicativo que não carrega e um balcão que exige um documento que ninguém avisou ser necessário. A modernização chega — mas chega para quem já tinha acesso. Para quem vive nas franjas da cidade, a digitalização é mais uma porta fechada.


Quem governa onde a prefeitura não chega

A pesquisa revelou algo que deveria tirar o sono de qualquer gestor público: a principal rede de apoio da população vulnerável de Campinas não é o CRAS, não é a UBS, não é o 156. São as igrejas.


A FEAC identificou que, diante de um Estado percebido como burocrático, ineficiente e distante, as igrejas emergem como a rede de apoio primária. Oferecem cestas básicas, roupas, medicamentos e até cadeiras de rodas. Grupos de WhatsApp de vizinhança organizam ajuda em emergências, apoio financeiro e cuidado de crianças e idosos. A escola, que deveria funcionar como rede de proteção, aparece como barreira — especialmente para mães de crianças com deficiência, que enfrentam processos longos, inclusive judiciais, para garantir cuidadores e adaptações.


Quando o Estado terceiriza de fato o cuidado social para instituições religiosas — não por política pública, mas por omissão —, o que temos não é uma rede de proteção. É uma improvisação que funciona na base do afeto e da fé, sem garantia de continuidade, sem cobertura universal e sem prestação de contas. É o avesso do que se espera de uma cidade com orçamento de quase R$ 12 bilhões.


As perguntas que ficam no ar

Se Campinas tem 800 profissionais de tecnologia a serviço da gestão pública e um orçamento de R$ 16,9 milhões só pra isso, por que o campineiro da periferia não consegue nem agendar uma consulta pelo celular?


Se o Índice de Acesso a Serviços é o pior dos três pilares medidos pela pesquisa, onde exatamente estão sendo investidos os R$ 2,3 bilhões da Saúde e os R$ 813 milhões de Serviços Públicos previstos para 2026?


Se a própria pesquisa mostra que educação e saneamento são os serviços que mais impactam a percepção de prosperidade — cada ponto a mais em educação eleva a prosperidade em 0,14 —, por que o orçamento de Habitação caiu 16% e o de Cultura caiu 7% no orçamento aprovado?

E se 85% dos campineiros confiam nos vizinhos e 66% acreditam no trabalho das ONGs, por que a prefeitura não investe de verdade em fortalecer essas redes comunitárias em vez de tratá-las como substituto silencioso do próprio Estado?


A pesquisa "Vozes Campineiras" é um espelho. Resta saber se a gestão municipal vai olhar pra ele — ou se vai seguir celebrando prêmios de conectividade enquanto a Lucimar continua invisível.


Fontes citadas:

  • Pesquisa "Vozes Campineiras" — FEAC/Quaest, outubro de 2025

  • Lei Orçamentária Anual (LOA) de Campinas para 2026

  • Plano Plurianual (PPA) 2026-2029 da Prefeitura de Campinas

  • PNAD Contínua — IBGE, 2024

  • Reclame Aqui — reclamação sobre o 156, março de 2025

  • IMA — Informática de Municípios Associados S/A (site institucional)

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